Bolha
Sapato de bico fino: moda em alta, saúde dos pés em baixa
Elegantes e clássicos, os sapatos de bico fino fazem parte da rotina de muitas pessoas. Entretanto, o uso frequente de modelos estreitos e altos pode levar a incômodos recorrentes nos pés, como unhas encravadas, calos e bolhas.
Segundo o ortopedista Edgard Saito, preceptor do internato do Centro Integrado de Saúde da Universidade Anhembi Morumbi, isso ocorre porque o calçado em questão comprime os dedos e aumenta a pressão sobre as bordas das unhas, favorecendo dor, inflamação e encravamentos.
"Além do uso repetido desses sapatos, outros fatores influenciam nesses quadros, como anatomia, hereditariedade, idade e doenças preexistentes", esclarece o médico.
Muito além da unha encravada
A advogada Yasmin Borges conhece a situação de perto. Por causa da profissão, que exige um visual mais formal, ela usou sapatos assim por anos até começar a sofrer com bolhas muito doloridas, principalmente nos dedinhos, e a ter unhas encravadas.
Chegou ao ponto de recorrer a uma podóloga para cuidar da unha. Foi a profissional também que lhe indicou pomadas para as bolhas. “Passei a escolher sapatos com o bico mais largo e a usar protetores. Hoje, uso bico fino esporadicamente”, revela a advogada.
A lista de desconfortos e problemas causados pelos bicos finos vai além das bolhas e unhas encravadas. Também pode incluir:
dor;
sensação de compressão nos dedos e no antepé;
escoriações;
calos e calosidades;
vermelhidão, inchaço e inflamação ao redor das unhas.
Em alguns casos, ainda pode agravar condições já existentes e dolorosas, como joanetes, dedos em martelo (deformidade em que uma articulação fica dobrada permanentemente), Neuroma de Morton ou mesmo alterar a forma de caminhar.
Como reduzir os riscos
Não existe uma fórmula segura para todo mundo. O especialista Edgard Saito avalia que depende das características dos pés, do ajuste e da altura do sapato, do tempo em pé, da distância percorrida e da presença de deformidades ou doenças já existentes.
“Pessoas com antepé mais largo, dedos longos, unhas muito curvas ou espessas, joanete, dedos em martelo, artrite, alterações circulatórias ou perda de sensibilidade estão entre as mais suscetíveis”, alerta o médico.
Já idosos e quem tem diabetes, neuropatia periférica ou histórico de úlceras nos pés merecem atenção especial, pois podem não perceber uma lesão logo no início.
Na prática, a recomendação é reservar calçado de bicos finos para períodos mais curtos e ocasiões específicas, evitando caminhadas longas. Uma estratégia simples é fazer o trajeto com um calçado confortável e trocar pelo modelo social ao chegar ao local.
Nem sempre é preciso abrir mão do modelo
A quem ama os bicos finos, aí vai uma boa notícia: os sapatos não precisam ficar guardados para sempre. Escolher o modelo com mais cuidado pode ajudar bastante. As recomendações a serem seguidas são:
respeitar o formato natural dos pés;
manter cerca de 1 a 1,5 cm entre o dedo mais longo e a ponta do calçado;
optar por materiais macios e flexíveis sobre os dedos;
preferir versões com calcanhar firme e sola estável;
priorizar saltos baixos e largos para uso prolongado;
antes de comprar, experimentar o calçado no fim do dia, quando os pés costumam estar mais inchados.
"O calçado pode ficar ajustado, mas não deve comprimir, provocar dormência nem deixar marcas dolorosas”, orienta o ortopedista. Ele ainda reforça sobre os cuidados com as unhas: devem ser cortadas retas, sem arredondar profundamente os cantos nem ficarem curtas demais.
Depois de tratar os problemas ocasionados pelo bico fino recorrente, a advogada Yasmin Borges tem o conselho na ponta da língua: “Não usar com tanta frequência, investir em protetores e considerar outros modelos mais largos, como os arredondados”, finaliza.