Fricção e Impacto do Calçado
Por que sapatos novos podem machucar tanto?
Às vezes, comprar um sapato novo costuma ser motivo de empolgação só até o primeiro uso. Bolhas, dor no calcanhar, pressão nos dedos e até dificuldade para caminhar podem surgir logo nas primeiras horas. Mas saiba que esse desconforto não é “azar”: a ciência da biomecânica tem a resposta para esse inconveniente.
Conforme explica o ortopedista Sérgio Costa, a culpa é da estrutura rígida do sapato novo, que ainda não sofreu deformações suficientes para se adaptar à anatomia individual do usuário. Como o pé possui áreas de maior proeminência óssea e regiões naturalmente mais sensíveis, esse contato inicial pode ser dolorido.
“Enquanto o calçado não está moldado, ele cria pontos de pressão e de atrito que o corpo ainda não está preparado para tolerar. Além disso, a pele não desenvolveu mecanismos de defesa, como o espessamento protetor”, detalha o especialista.
Atrito e pressão são os vilões
A fricção é o principal fator envolvido nas lesões iniciais. Isso porque ela provoca um deslizamento repetido entre o sapato e a pele, gerando estresse nas camadas cutâneas e favorecendo o surgimento de bolhas e feridas.
É diferente do que ocorre no surgimento de calos, que são uma resposta adaptativa. O médico esclarece que, nesses casos, a pele se torna mais espessa justamente para se proteger do atrito constante. Agora, se o trauma for intenso, podem surgir lesões e inflamação.
Outro fato a ser considerado é que os materiais rígidos potencializam esse impacto. Couro novo, estruturas traseiras (contrafortes) duras e costuras internas firmes não absorvem bem a carga nem se moldam facilmente, aumentando a concentração de pressão em áreas específicas do pé.
O calçado deve se adaptar ao pé
Cada pé é único. Se o sapato não respeitar características individuais como formato, pisada e distribuição de carga, o resultado pode incluir dores locais, áreas inflamadas e até alteração na caminhada. Por isso, a regra de ouro é: o calçado sempre deve se adaptar ao pé e não o contrário.
“Existe um período de adaptação saudável, que pode durar de alguns dias até algumas semanas. Nesse tempo, o sapato se torna mais flexível e o pé desenvolve mecanismos de proteção. É uma adaptação mútua”, afirma o ortopedista Sérgio Costa.
Vale lembrar que algumas pessoas sofrem mais durante esse processo, pois apresentam fatores que influenciam na tolerância ao impacto inicial. Alguns deles são:
maior sensibilidade da pele;
presença de deformidades;
tipo de pisada;
idade;
doenças, como diabetes.
Quando o desconforto vira alerta
Segundo o especialista Sérgio Costa, dor intensa, feridas importantes ou mudança na forma de andar indicam que o desconforto está além do esperado. É preciso dar atenção aos sinais porque a repetição desse impacto, sem adaptação adequada, pode contribuir para quadros como tendinites, metatarsalgias, fascite plantar e até deformidades.
Além disso, algumas regiões costumam ser mais afetadas:
calcanhar;
lateral do quinto dedo;
parte superior dos dedos;
região plantar anterior.
Para reduzir o impacto inicial, o ortopedista orienta usar o sapato por períodos curtos no começo, escolher o tamanho correto, utilizar meias adequadas, recorrer a protetores de silicone e dar preferência a materiais mais flexíveis.