Cuidado Diário
Autoexame diário dos pés: como, quem e por que fazer?
O cuidado prévio é uma das principais medidas de prevenção para o pé diabético, uma complicação grave e evitável. O autoexame diário, simples e rápido, pode fazer diferença entre uma pequena ferida e uma infecção severa.
Segundo a endocrinologista Patrícia Gomes, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP), o excesso de glicose no sangue é capaz de danificar os nervos e os vasos dos pés, levando à perda de sensibilidade.
“Quem tem diabetes pode não perceber ferimentos e há chance de isso evoluir para infecções graves e até amputações. O autoexame diário permite detectar precocemente qualquer alteração e agir rapidamente”, explica a médica.
Quem tem a mesma opinião é a também endocrinologista Lorena Amato, doutora pela USP. Para ela, o autoexame é uma prática indispensável entre os pacientes diabéticos, mesmo os que não apresentam alterações aparentes.
“Todos devem olhar os pés diariamente. Quem tem dificuldade de se abaixar pode usar um espelho ou pedir ajuda. Se notar vermelhidão, ferida ou calor diferente em alguma área, deve procurar um médico imediatamente”, orienta a especialista.
O que observar nos pés
Durante o autoexame diário, é essencial procurar por alterações visíveis e sutis. As profissionais destacam principalmente:
Feridas, bolhas, rachaduras ou cortes, mesmo que pequenos;
Mudanças na coloração da pele, como vermelhidão, manchas escuras ou palidez;
Áreas mais quentes ou mais frias do que o normal;
Unhas encravadas, deformadas ou com micose;
Calosidades e espessamento da pele.
Se houver qualquer sinal de alteração, a avaliação médica deve ser imediata, afinal, o tempo é um fator determinante para evitar infecções, sobretudo em diabéticos.
Atenção à sensibilidade
Lorena Amato ressalta que um dos primeiros sinais de risco é a perda da sensibilidade, chamada de neuropatia periférica, que pode surgir aos poucos, com sintomas como:
Formigamento, queimação ou dormência;
Sensação de “andar em algodão”;
Dificuldade em perceber calor, frio ou dor.
Já Patrícia Gomes observa que uma maneira simples de testar é tocar diferentes partes dos pés com os dedos ou com um algodão. “Se a pessoa não sentir o toque ou não perceber diferença entre um pé e outro, é fundamental procurar avaliação médica.”
Passo a passo do autoexame
Além de observar, é importante saber como fazer o exame de maneira correta e segura. Abaixo, as endocrinologistas ensinam:
Escolha um local bem iluminado e sente-se confortavelmente;
Use um espelho para ver a planta dos pés ou peça ajuda a alguém;
Examine entre os dedos e ao redor das unhas;
Verifique se há feridas, bolhas ou secreções;
Mantenha os pés sempre limpos, secos e hidratados (sem creme entre os dedos);
Corte as unhas no formato reto e evite remover cutículas ou calos em casa;
Nunca ande descalço, nem dentro de casa.
Esses cuidados diários, somados ao acompanhamento profissional, reduzem o risco de complicações e melhoram a circulação e a cicatrização.
De acordo com Lorena, controlar o diabetes é o primeiro passo para prevenir quaisquer complicações. “Quanto melhor for o controle da glicemia, menor o risco de desenvolver neuropatia e alterações circulatórias”, reforça.
Ela ainda recomenda o uso de meias de algodão e sem costura, além de calçados confortáveis, sem pontos de atrito na pele. E alerta: fatores como tabagismo, má circulação, deformidades nos pés e sapatos inadequados aumentam o risco de complicações.
Um alerta importante: as duas especialistas reforçam que o pé diabético é evitável em grande parte dos casos. “Entre 50% e 70% das amputações não traumáticas estão relacionadas ao diabetes, e muitas poderiam ser evitadas com informação e cuidado”, conclui Lorena.