Por volta dos quarto ano de vida, a dificuldade de uma criança em dividir brinquedos costuma gerar constrangimento (sobretudo em locais públicos) e dúvidas nos pais. Embora interpretadas como egoísmo ou falta de limite, essas explosões costumam refletir imaturidade emocional própria da idade. Entender essa diferença é o primeiro passo para intervir com equilíbrio.
Foi o que aconteceu com a social media Ana Sarah Lima, mãe de um menino de 4 anos. Os episódios começaram depois da entrada na creche e se repetiram nos encontros com primos. Em situações de disputa, ele insistia que o brinquedo era dele e reagia com choro ou resistência quando outra criança se aproximava.
“No começo, eu briguei e disse que ele não podia ser egoísta, porque nós não agíamos assim com ele em casa. Depois, percebi que não era algo isolado e que eu precisava mudar a forma de ensiná-lo”, relata.
Por que dividir é tão difícil?
De acordo com a psicóloga clínica Patricia de Paula Costa, que atua com terapia cognitivo comportamental e atende crianças, esse comportamento é absolutamente esperado nessa fase.
É quando o pequeno está no estágio pré-operatório descrito por Piaget, marcado pelo egocentrismo cognitivo. Isso significa que ainda não compreende plenamente o ponto de vista do outro. Não se trata de egoísmo moral, mas de limitação do desenvolvimento.
Portanto, o que acontece nesse momento:
- A noção de reciprocidade ainda está em construção.
- A autorregulação emocional é imatura.
- A frustração é vivida de forma intensa e concreta.
- Não há repertório cognitivo suficiente para esperar ou negociar.
“Ensinar a dividir exige paciência, repetição e formas lúdicas de conduzir a birra para que a criança se sinta ajudada, não invadida”, orienta a profissional.
Explosão X sinal de alerta
Nessa fase, há um descompasso natural entre desejo intenso, linguagem em expansão e capacidade limitada de autorregulação. O pensamento ainda é concreto e dicotômico, ou seja, sem meio-termo – o famoso “é meu” ou “não é justo”. Já o “escândalo” associado à recusa funciona como descarga emocional, não como manipulação intencional.
A birra esperada costuma:
- surgir diante de frustração clara;
- durar pouco tempo;
- acontecer principalmente com figuras de apego;
- cessar após acolhimento ou limite.
Enquanto isso, é importante prestar atenção em alguns sinais nas situações que a criança não quer dividir um brinquedo:
- frequência muito alta e em vários ambientes;
- agressividade persistente;
- dificuldade de se reorganizar mesmo após ajuda;
- prejuízo significativo nas relações sociais;
- escândalos sem contexto claro de frustração.
Segundo a especialista, o critério central para diferenciar é o impacto funcional. Buscar entender se o comportamento está realmente prejudicando o desenvolvimento social e emocional da criança faz toda a diferença neste momento.
Como agir no momento de gritaria infantil
Vergonha e dúvida invadem a mente dos pais e cuidadores quando uma situação como essa acontece. No entanto, a chave é validar o sentimento e manter o limite. Lembre-se: educação respeitosa não é permissiva.
Na prática, isso significa:
- autorregulação do adulto primeiro;
- abaixar-se na altura da criança;
- nomear a emoção;
- manter o limite com clareza;
- oferecer alternativa possível;
- evitar longas explicações racionais;
- não ceder apenas para cessar o choro.
Sim! Ceder para acabar com o escândalo pode reforçar negativamente o comportamento e ensinar a criança a fugir da frustração em vez de aprender a regulá-la.
Como ensinar a dividir brinquedos na prática
A psicóloga clínica Patricia de Paula Costa reforça que compartilhar é uma habilidade individual e não uma obrigação moral. O comportamento se aprende com modelo, repetição e previsibilidade. E algumas estratégias podem ajudar:
- ensinar antes do conflito;
- brincar de revezamento (“minha vez, sua vez”);
- usar jogos simples que envolvam espera;
- reforçar positivamente quando a criança aguarda;
- separar previamente brinquedos que poderão ser compartilhados;
- criar combinados simples e sustentáveis.
Foi o que fizeram Ana Sarah e o marido. Ao perceberem que brigar não funcionava quando o filho de quatro anos não queria dividir nada, eles passaram a encenar situações de divisão em casa, usando brincadeiras para ensinar revezamento. Hoje, o menino ainda tenta não compartilhar em alguns momentos, mas repensa quando recebe uma orientação mais clara e direcionada.
“Ensinar a dividir não significa forçar a divisão. A empatia se desenvolve gradualmente e a criança aprende mais pela modelagem do que pelo discurso. O adulto precisa estar disposto a repetir incansavelmente, com calma, até dar certo”, finaliza a psicóloga.
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