Chega determinado horário e é certeza: o bebê começa a chorar, nada parece resolver e a família fica com a sensação de que existe algum problema. A situação é tão comum que ganhou até o nome de “hora da bruxa”, mas não passa de uma fase.
Segundo a pediatra Thatyana Turassa Ernani, integrante da plataforma de consultas INKI, esse comportamento aparece nas primeiras semanas de vida, atinge o pico por volta da sexta semana e melhora espontaneamente entre o terceiro e o quinto mês.
“Os novos critérios internacionais deixaram de chamá-lo apenas de ‘cólica do lactente’ e passaram a usar o termo ‘síndrome da angústia do lactente’, reconhecendo que esse choro nem sempre está relacionado ao intestino. O bebê chora porque ainda está aprendendo a existir fora do útero”, explica a especialista.
Excesso de estímulos pesa
O choro costuma resultar da combinação entre imaturidade do sistema nervoso, acúmulo de estímulos ao longo do dia e dificuldade natural do bebê para se autorregular. Nesse momento, quem ajuda nessa regulação ainda são os cuidadores.
Ao longo do dia, o recém-nascido recebe uma enorme quantidade de informações: luzes, sons, vozes, movimentos, colo e novas experiências. Esse excesso pode fazer com que, no fim da tarde, o “copo transborde” e o choro apareça.
Para tornar esse período mais tranquilo, a médica recomenda:
- reduzir luzes, ruídos e visitas no fim da tarde;
- oferecer colo, contato pele a pele ou usar sling;
- embalar o bebê com movimentos suaves;
- utilizar ruído branco ou fazer um “shhh” contínuo;
- oferecer o peito em livre demanda;
- dar um banho morno;
- revezar os cuidadores quando alguém estiver muito cansado.
Nem todo choro significa doença
Na fase da chamada “hora da bruxa”, o bebê costuma ficar bem no restante do dia: mama normalmente, ganha peso e mantém boa disposição. Já quando o choro foge desse padrão ou aparece acompanhado de outros sintomas, a situação merece atenção.
Entre os sinais de alerta estão:
- febre;
- vômitos frequentes;
- recusa alimentar;
- dificuldade para respirar;
- sangue nas fezes;
- diarreia;
- baixo ganho de peso;
- prostração;
- choro muito diferente do habitual, intenso e inconsolável.
A pediatra Thatyana Turassa Ernani recomenda buscar avaliação médica se o choro persistir além do quinto mês, for intenso em qualquer horário ou vier acompanhado dos sintomas acima. Já a suspeita de alergia à proteína do leite de vaca deve ser criteriosa.
Fase vai passar
Durante a hora da bruxa, é importante evitar atitudes sem respaldo científico ou orientação, como restringir a alimentação da mãe, trocar fórmulas, interromper a amamentação ou oferecer medicamentos e chás sem indicação profissional.
Nunca sacudir o pequenino também está entre as recomendações. Se o cuidador perceber que está perdendo o controle, o mais seguro é colocá-lo no berço por alguns minutos, respirar e pedir ajuda antes de retornar.
“O objetivo não é zerar o choro, mas atravessar esse momento junto com o bebê. Colo, nessa fase, não é excesso. É uma necessidade básica. E uma mensagem importante para os pais: vocês não estão fazendo nada errado. Essa fase passa”, finaliza a médica.
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Como entender o choro do meu bebê em cada fase
Nos primeiros meses de vida, o choro é um reflexo de sobrevivência. Como o bebê ainda não possui linguagem, autorregulação ou compreensão simbólica, ele utiliza esse recurso como principal canal de comunicação com seus cuidadores. Mas, com o passar do tempo, os motivos por trás das lágrimas costumam mudar. A psicóloga infantil e psicopedagoga Bianca Zambon explica que, segundo a Teoria do Apego, do psiquiatra John Bowlby (1907-1990), o choro ativa o sistema de cuidado do adulto, funcionando como um chamado por presença e proteção. “Entre seis e oito semanas de vida, é comum um choro mais intenso no final do dia, que pode indicar sono, fome, dor, frio ou calor. Os pais passam a reconhecer os significados com o tempo e convivência”, assegura a profissional. Quando o choro ganha novos significados Com o passar do tempo, as lágrimas vão ganhando novos motivos. Por volta de seis a nove meses, por exemplo, o choro começa a apresentar componentes emocionais. Já depois dos 2 anos, com o avanço da linguagem e da consciência, expressa frustração, raiva, ciúme, necessidade de atenção e sobrecarga. Bianca destaca que o padrão também muda. Além do choro, podem surgir falas, gritos ou birras, especialmente quando a criança já tenta comunicar melhor o que sente, mas ainda não consegue regular as emoções. Conforme o cérebro amadurece, a turma mirim começa a nomear emoções e prever frustrações. Como a autorregulação segue em construção, o choro vira uma descarga emocional e passa a se relacionar com causas, não apenas com respostas fisiológicas. Interpretando cada lágrima No dia a dia, não há uma resposta exata para diferenciar cada tipo de choro, mas é possível fazer relações com o contexto. Quando acontece no final do dia, costuma estar ligado ao cansaço, com irritabilidade, e tende a diminuir com colo, atenção e um ambiente mais tranquilo. Agora, se for um choro de frustração ou birra, geralmente aparece após um “não” e pode vir acompanhado de raiva. Nesses casos, a orientação é acolher, explicar o motivo da negativa e estabelecer combinados prévios, que ajudam a diminuir essas reações. “Uma criança pequena não tem maturidade para manipular de forma estratégica. Na maioria das vezes, é uma tentativa de regulação emocional. Elas também agem intencionalmente por tentativa e erro: se fizeram algo anteriormente e conseguiram o que queriam, esse comportamento tende a se intensificar”, esclarece a psicopedagoga. O papel do adulto Ignorar o choro pode ter efeitos diferentes, dependendo da fase. Nos primeiros anos, essa postura gera insegurança, ansiedade e dificuldade de identificar emoções, enquanto a presença do adulto ensina que sentimentos são aceitos. A psicóloga infantil Bianca Zambon reforça que, ao ser ignorada pelo cuidador, a criança pode intensificar o choro ou inibir emoções. Por isso, é importante avaliar cada caso e cuidar para não desvalidar sentimentos. Se os episódios forem frequentes e excessivos, vale buscar ajuda profissional. Para lidar com a situação no dia a dia, ela orienta usar o diálogo: conversar, fazer combinados, nomear emoções, falar de como se sente e dar exemplos positivos. Com o tempo, o papel do adulto deixa de ser apenas cessar o choro e passa a ajudar a criança a reconhecer emoções, tolerar frustrações e encontrar estratégias alternativas.
Meu bebê chora muito para dormir. É normal?
A privação de sono de pais e cuidadores é um dos maiores desafios após a chegada do bebê e esses episódios tendem a se intensificar quando os choros noturnos começam. Será dor, uma fase normal do desenvolvimento ou algum problema de saúde? Entre dúvidas, inseguranças e tentativas, vale investigar o que está acontecendo. Meia hora dormindo e outras muitas horas acordada, chorando. Assim era a rotina de três meses da filha de Ana Cristina. Mãe de primeira viagem, ela tentou de tudo: canção de ninar, luzes baixas, ruído branco, difusor de óleo essencial, banho relaxante e até reorganização dos móveis do quarto da menina, mas nada resolveu. “Fiquei muito preocupada com as crises de choro e quis investigar absolutamente todas as possibilidades: dor, doença, algum distúrbio”, conta. Só depois de conversar com a pediatra e descartar problemas de saúde, entendeu que se tratava de um salto de desenvolvimento, típico dessa faixa etária. O que é esperado no sono do bebê Recém-nascidos adormecem no chamado sono “ativo”, caracterizado por padrões respiratórios e cardíacos irregulares, tônus muscular diminuído, olhos fechados e manifestações como choro, sorrisos ou gemidos, conforme explica a pediatra Clery Gallacci, do Hospital e Maternidade Santa Joana. Esse comportamento ocupa cerca de 60% do tempo dos recém-nascidos a termo (dentro do prazo esperado) e pode chegar até 80% a 90% entre os prematuros. Segundo a médica, essa característica está relacionada à imaturidade do sistema nervoso central nas primeiras semanas de vida. O choro, portanto, pode fazer parte dessa adaptação neurológica. Ao nascer, o bebê tem um sono polifásico, ou seja, dorme de oito a dez vezes ao longo do dia, e isso naturalmente leva a mais episódios de choro. Apesar de diferente, essa organização é fundamental para o desenvolvimento e a plasticidade do cérebro dele. Mas as coisas mudam a partir do primeiro mês, com mais horas de sono noturno. Pistas e causas O choro pode ser uma boa dica para entender o que está acontecendo, já que o timbre muda conforme a situação. Quando está mais agudo, reflete dor ou desconforto, por exemplo. Por isso, os cuidadores devem observar esse padrão ao longo dos dias para reconhecer diferenças importantes. Além disso, o sono infantil também sofre influência de: ruídos ambientais; temperaturas extremas; rotinas; interação social; fome (mamadas inadequadas); dor; secreção hormonal. “Os despertares noturnos também variam de acordo com a maturidade: cerca de 50% dos lactentes aos nove meses apresentam despertares e entre 20% e 40% podem mantê-los entre 12 e 24 meses”, destaca a pediatra Clery Gallacci. Como lidar com o choro pré-sono A especialista lista medidas que podem colaborar para um sono mais tranquilo: manter rotina diária bem estabelecida com mamadas, banhos etc.; diminuir a luz artificial ao anoitecer; oferecer ambiente familiar calmo; garantir temperatura adequada do ambiente e do bebê; evitar estímulos de telas, luz e som nas primeiras semanas, caso o bebê durma no mesmo ambiente que o adulto; a partir do sexto mês, incentivar o bebê a dormir sozinho no berço. Em caso de dúvida ou se nenhuma estratégia surtir efeito, os responsáveis devem consultar o pediatra. O acompanhamento profissional é fundamental para descartar causas mais graves e orientar o melhor caminho. No caso da mamãe Ana Cristina, mesmo relutante por medo de julgamentos, o que resolveu foi a cama compartilhada, com extensor. Hoje, com a situação controlada, ela garante: essa fase vai passar. “Investigue mesmo que digam que é exagero. Tente tudo o que achar que vale a pena, independentemente do que acharem”, aconselha.
Por que alguns rituais acalmam mais os pais do que o bebê?
Nos primeiros anos de vida, muitos pais criam sequências quase coreografadas para dar banho, colocar para dormir ou acalmar o choro. Nem sempre esses rituais mudam o comportamento do bebê, mas podem ter um efeito importante em quem cuida dele. Se houver segurança, flexibilidade e regulação entre os adultos, está tudo bem. A psicóloga Cibele Pejan, do dr.consulta, explica que o adulto precisa de previsibilidade para regular o próprio sistema emocional. Diante de choro, sono picado e situações difíceis de interpretar, o ritual oferece sensação de controle e competência, reduz ansiedade e evita decisões tomadas no improviso. “Mesmo que o ritual não faça o bebê dormir mais rápido, se ele deixa o adulto menos tenso, mais presente e mais paciente, já melhora o clima do cuidado. Às vezes a estratégia muda para quem cuida e isso muda a experiência”, observa a profissional. Quais são os rituais? As imprevisibilidades dos primeiros anos, como sono fracionado, mudanças no corpo e na identidade dos pais, motivam esses hábitos. Nesses casos, os rituais são como um suporte emocional: organizam o dia, diminuem conflitos entre cuidadores, estabelecem um “jeito de fazer” e ajudam no medo de “errar” com o bebê. A profissional cita algumas das estratégias que acabam acalmando mais os adultos do que os próprios bebês: Sequência fixa de banho–luz baixa–música–frase final. Checar repetidamente fralda, temperatura e ruído. Aplicativo de sono e busca pelo “horário perfeito”. Paninho específico ou ruído branco em frequência exata. Checklist mental: “mamou, arrotou, trocou”. Vale lembrar também que, no dia a dia, os bebês captam tom de voz, ritmo do toque, respiração, pressa e tensão corporal de seus cuidadores. Assim, um adulto regulado consegue transmitir segurança, enquanto quem está ansioso pode comunicar que algo está errado. Se os rituais ajudam nessa regulação, eles também beneficiam os pequenos. Limites importantes Não há problema em manter esses hábitos desde que: não se tornem imposição rígida; não atrapalhem necessidades básicas, como sono e fome; não geram brigas ou culpa; possam ser adaptados. “Um cuidador regulado é um recurso essencial para o bebê. Ele precisa de segurança, que requer menos técnica e mais qualidade de presença. Quando há regulação, a mensagem é de que aquele espaço é seguro”, avalia a psicóloga Cibele Pejan. Os sinais de alerta só aparecem quando o adulto entra em pânico se não consegue seguir o protocolo, quando o bebê vira “refém” da sequência perfeita ou quando o ritual passa a desgastar mais do que ajudar. Se a prática aumenta a ansiedade e reduz a capacidade de escutar, perde-se o equilíbrio. É importante avaliar a situação e pedir ajuda. Como manter flexibilidade e segurança Para diferenciar rituais acolhedores de práticas mantidas por medo ou culpa, algumas perguntas ajudam: Depois do ritual, eu fico mais calmo(a) e conectado(a) ou mais tenso(a)? Se eu não fizer hoje, tudo bem? Eu me adapto ao bebê ou forço o bebê a caber no meu plano? O ritual me serve ou eu sirvo o ritual? “Muitos pais carregam a ideia de que, se fizerem tudo certo, o bebê não vai sofrer. Mas bebê chora, muda, tem fases. O objetivo não é eliminar todo desconforto, e sim ser um adulto suficientemente bom, presente e ajustável”, esclarece a especialista. A dica final é pensar em pontos de referência, não em regras rígidas. Estabelecer duas ou três ações simples é suficiente, como luz mais baixa, voz calma e toque tranquilo. Traçar planos A e B também auxilia. Já em momentos de tensão, o adulto deve focar em se autorregular: beber água, respirar e revezar o cuidado com o par antes de lidar com o bebê novamente.
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